Editorial

     


         




O
conjunto de 16 artigos reunidos neste dossiê desvela em parte a dimensão dos estudos de gênero e sexualidade no Brasil, cujo campo tem se consolidado nas últimas décadas, inclusive no âmbito da disciplina História, que, no país, somente se abriu para esta temática depois de outras disciplinas das Humanidades como, por exemplo, a Sociologia. 

As abordagens de gênero e sexualidade implicam concepções que vão além de práticas constituídas socialmente a respeito do feminino e do masculino. Debruçam-se sobre os corpos, as performatividades – enfim, sobre as maneiras de se apresentarem e vivenciarem as sexualidades. Esquadrinham as relações de poder engendradas nas representações, discursos e práticas, trazendo à tona os embates, encontros e desencontros políticos, inclusive no campo das morais religiosas, o que alguns artigos deste dossiê evidenciam mais explicitamente.

Os textos resultam de pesquisas elaboradas em instituições de ensino das diferentes regiões do Brasil, cujos(as) autores (as), de diferentes níveis de escolarização, são predominantemente da área de História. Trata-se de artigos que percorrem um amplo arco temporal e espacial, havendo trabalhos sobre a sociedade cortesã, o Brasil republicano, o Egito atual. Voltam-se para fontes de largo espectro, ao analisarem processos crimes, periódicos, discursos institucionais, literatura, pintura, animação, entre outras.

À titulo de apresentação dos artigos deste dossiê, é possível agrupar os textos em quatro eixos, que se entrecruzam seja pela temática específica, seja pelo período abordado, seja pelo tipo de fonte analisado. Trata-se de: a) gênero – cuja ênfase situa-se nas relações assimétricas e nas formas de subalternização de mulheres, que se verificam inclusive na representação do feminino em objetos culturais; b) homossexualidades – cujos textos analisam as discriminações, as perseguições, as formas de afetividade, o acolhimento de homossexuais por certas associações religiosas, bem como a sua rejeição por outras, e, ainda, um dos artigos destaca especificamente a lesbianidade; c) sexualidade – trata-se de textos que abordam de maneira mais geral questões deste campo, ao tratarem temas como, por exemplo, a doença venérea no início do século XX ou as ações anti-assédio no Cairo; d) gênero, sexualidade e ensino – reúne textos que esquadrinham o debate contemporâneo sobre gênero nas escolas. Os artigos estão dispostos da seguinte maneira:


Gênero 

A partir do estudo de caso de um processo crime sobre uma situação de defloramento de uma moça menor de idade, o texto TENTATIVA DE DEFESA À HONRA PRESENTE EM UM PROCESSO CRIME E DISCURSOS REFERENTES AO CORPO DA MULHER EM 1940 EM MALLET/PR de Nadia Maria Guariza e Camila Biranoski reflete a situação das mulheres de Mallet (PR) durante a década de 1940, evidenciando o poder dos enunciados jurídicos, religiosos, médicos e estatais que realizavam uma política higienista em torno dos corpos à época. DO ÚTERO AO CORAÇÃO: Corpos de Mulher, Maternidade e Eugenia na Utopia de Adalzira Bittencourt, redigido por Danielle Silva Moreira Santos, analisa um contexto político do início do século XX em que o discurso médico valeu-se de prerrogativas eugênicas e com chancela estatal atuou na prescrição e reforço da atribuição de papeis sociais baseados na suposta predisposição biológica de mulheres e homens. Em CORPO PINTADO: Análise sobre as Relações de Gênero/Sexo/e Poder desencadeadas na obra do artista plástico Francisco Brennand, Tainá Maívys da Silva Santiago observa como este artista normalizava e normatizava as mulheres a partir de seu olhar de homem branco e com privilégios de classe, reverberando heterossexualidade compulsória e a binaridade masculino/feminino e não dando espaço a outras performatividades de gênero. Em RELAÇÕES DE TRABALHO E GÊNERO NOS ROMANCES DE JORGE AMADO: As “Operárias do Sexo” e as Operárias do Fumo pela estética do Realismo Socialista (1933-1937), Geferson Santana de Jesus contempla como tais operárias são expressas nos romances amadianos da década de 1930 a partir da estética do realismo socialista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No texto VIOLÊNCIA CONTRA PROSTITUTAS DURANTE A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA BRASILEIRA (1974-1988): Casos de Polícia em Jornais de Grande Circulação, Vaneildes Faria da Conceição e Alcilene Cavalcante de Oliveira questionam: como as prostitutas, associadas ao pecado e transgressoras do modelo de “moral e bons costumes” eram impactadas pelos ideais conservadores da época? Já Paula Akeime Umekawa parte dos conceitos de gênero de Judith Butler e da leitura crítica de mídia de Douglas Kellner e Graeme Turner para analisar AS REPRESENTAÇÕES DO FEMININO NA ANIMAÇÃO “HORA DE AVENTURA”.


Homossexualidades 

Em A IGREJA ANGLICANA E A HOMOSSEXUALIDADE: Da Perseguição aos Debates sobre sexualidade nas Conferências de Lambeth, Diogo Marialva Moraes elucida a atuação e influência da igreja anglicana na perseguição a homossexuais na Inglaterra do século XVI e na formulação das leis anti-sodomia, e também as mudanças ocorridas a partir da década de 50 quando tiveram início os debates sobre a aceitação da homossexualidade no anglicanismo. Analisando as concepções de “namoro santo” e “combate à promiscuidade” na Igreja Cristã Contemporânea e na Cidade do Refúgio, ENTRE A FÉ E O PRAZER: códigos morais e o cristão LGBTI+, de Natanael de Freitas Silva, destaca como algumas igrejas inclusivas reelaboram códigos morais, sociais e sexuais de acordo com as demandas de fiéis.

A partir de matérias dos jornais O Globo e Folha de São Paulo e de historiografia brasileira sobre a ditadura civil-militar, Aline Nawara Cintra Silva e Alcilene Cavalcante problematizam os impactos sofridos por lésbicas em O PROJETO MORAL-SEXUAL DA DITADURA MILITAR: A Invisibilidade Lésbica. João Gomes Junior contempla modos de representação sócio-política sobre homossexuais e homens que se prostituíam, assim como os esforços de reintegração destas pessoas em uma lógica de produção de corpos em GÊNERO, PRODUÇÃO DE CORPOS E PERFORMATIVIDADE NA BELLE ÉPOQUE CARIOCA. E em HOMOSSEXUALIDADE E REVOLUÇÃO CUBANA: Uma Carta do Escritor Reinaldo Arenas para Aurelio Cortés, Jorge Luiz Teixeira Ribas analisa as percepções de Arenas sobre si e sobre a sociedade revolucionária que violentou e cerceou direitos de pessoas homossexuais.


Sexualidade 

Através de elementos utilizados por Walter Benjamin para analisar o drama barroco alemão – a corte, o príncipe e o cortesão –, em “NARRATIVAS REAIS”: As Representações da Sexualidade Cortesã na escrita Literária e Histórica, Marcio Eurélio Rios de Carvalho demonstra algumas possibilidades de análise de estudo da sociedade de corte formada a partir da consolidação dos Estados nacionais europeus. AS PRÁTICAS DE CUIDADO COM O CORPO DO DOENTE VENÉREO EM TERESINA (1930-1945), escrito por Ana Karoline de Freitas Nery, analisa o tratamento médico de doentes venéreos na capital do Piauí durante governo de Getúlio Vargas (1930-45), quando o enfrentamento dessas enfermidades ganhou estatuto de política pública. A partir de pesquisa etnográfica feita durante oito meses em uma ONG egípcia antiassédio sexual, Renata Fontoura apreende distintos processos de construção da categoria assédio sexual em CONSENSO OU HORIZONTALIZAÇÃO? Embates e mediações na construção da luta antiassédio sexual no Cairo, Egito, colaborando com reflexões acerca dos processos de mediação cultural realizada a partir de mecanismos de tradução, interpretação e negociação desta violência no léxico gramatical local em que se procura promover conexão entre dimensões locais e sistemas mais amplos.


Gênero, sexualidade e ensino 

Em A DESIGUALDADE DO GÊNERO NO ENSINO, Adrielly Melo Borges aborda alguns dos porquês do predomínio masculino em setores laborais e instiga a reflexão sobre o desempenho feminino em relação às ações afirmativas no ensino superior. O artigo GÊNERO E DIVERSIDADE NA ESCOLA OU IDEOLOGIA DE GÊNERO? Reações religiosas a um Plano Municipal de Educação de Santa Catarina, de Odair de Souza e Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão F. analisa a retirada de termos relacionados a gênero de um Plano Municipal de Ensino (PME) por conta de concepções religiosas que relacionam a falaciosa “ideologia de gênero” com o “fim da família brasileira”.

Os(as) leitores(ras) poderão apreciar, então, neste dossiê, certo espectro dos estudos de gênero e sexualidade no Brasil, que não apenas permite adentrar o campo como ampliar a visão sobre tais estudos, pois os textos apresentam novas possibilidades de abordagens, além de enfrentarem explicitamente questões relativas aos embates políticos e da moral religiosa.

Para além dos 16 textos que integram o dossiê, este número é composto por dois artigos livres, um ensaio e uma resenha. O primeiro artigo livre, de autoria de José Antônio Geraldes Graziani Vieira Lima, intitulado O RÁDIO E A TELEVISÃO COMO PARTE DO SOFT POWER DO IRÃ: A Estratégia e seus Limites, comenta sobre as estratégias do soft power da República Islâmica do Irã, analisando o uso da mídia para projetar e exercer sua política externa, sobretudo na região do Oriente Médio. Outro texto, de Priscila Dorella, debate em OCTÁVIO PAZ & SUSAN SONTAG: Fraternidade sobre o Vazio, sobre a troca de cartas entre Susan Sontag (1933-2004) e o poeta mexicano Octávio Paz (1914-1998), onde discutiam sobre as polêmicas de ambos, travadas com a esquerda, em seus respectivos países, num contexto de políticas econômicas conservadoras.

No ensaio ANTES DO REALISMO SOCIALISTA, de Cid Vasconcelos, nos deparamos com a análise exploratória da produção de filmes do cinema soviético realizada sob o auge do “Cinema de montagem”, onde esta lidava de forma interessante, e distinta, com princípios estéticos e ideológicos. Em outra linha, a resenha de Alfredo Bronzaro da Costa Cruz sobre o livro The Life and struggles of Our Mother Walatta Petros: a seventeenth century african biography of an ethiopian woman nos apresenta e convida a ler uma obra instigante, sobretudo para aqueles(as) interessados(as) não apenas pela História da África, mas também pela colonização europeia, suas idiossincrasias e seus tropeços e, ainda, pelas dinâmicas afetivas, familiares e da construção de gênero e sexualidade no mundo pós moderno.

Por fim, resta-nos agradecer sinceramente à Coordenação da Poder e Cultura por acolher esta proposta, aos/às autores(as), aos/às pareceristas e à equipe técnica de colaboradores, especialmente ao Élbio Quinta que tão prontamente nos auxiliou nessa realização. Boa leitura!



Alcilene Cavalcante de Oliveira¹
Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Fº²



[1] Doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, é professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e vinculada ao PPGH dessa instituição. E-mail para contato: alcilenecavalcante@gmail.com.
[2] Pós-Doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Pós-Doutorado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela UFSC. Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrado em História do Tempo Presente pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Presidência da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). Coordenação da Fogo Editorial. E-mail: edumeinberg@gmail.com.