Editorial

     


         




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educação popular está sob ataque, em todas as suas dimensões: método, movimento, práxis, modalidade, escola. Não sob uma investida direta, frontal, mas na curva. Nunca se atacou tanto no país o legado das experiências educacionais com rosto humano porque fincadas nos processos ontológicos, nos desejos de mulheres, homens, velhos, crianças, subalternizados.

Notadamente a seta Paulo Freire tem sido o alvo do obscurantismo, do tsunami conservador, da razão neoliberal periférica, com mais ou menos fragrâncias fascistas. A investida anti Freire representa ao mesmo tempo uma vitória do pensamento social brasileiro - em sua vertente mais vinculada ao chão da escola, à concretude de nossa desigualdade abissal - e uma derrota dos coletivos e organizações que surgem no processo de transição do regime civil-militar, pactuada por cima, mas também resultado de tensões no/do Estado ampliado, resultantes de lutas sociais de longo alcance.

Tratar da educação popular na academia será sempre um duplo desafio de tradução e elaboração. Tradução das gramáticas contra-hegemônicas erigidas no tecido nacional sempre remendado; elaboração de consensos e redes capazes de pesar na correlação de forças em favor da classe-que-vivedo-trabalho. Se há uma pulsão formativa presente em todas as sociedades, é exatamente no elemento popular, em sua polissemia sempre problemática, que ainda encontramos vestígios de um DNA da experiência como partilha e elaboração coletiva de sentidos.

Num contexto do cinismo como falência da crítica, no sentido assinalado por Vladimir Safatle, e de incremento da política enquanto ódio, agora sem recalques, é iniciativa estratégica um dossiê sobre a educação popular, menos inventário e mais rosa dos ventos. Se a educação popular de matiz freireana foi impedida com o Golpe de 1964, onde conseguimos chegar na retomada democrática da/na Nova República, sob diversas fantasmagorias, dentre as quais a própria experiência democrática? Por que a escola, principalmente os docentes, ainda encarnam o lugar a ser “mexido”, combatido, esterilizado, pela família, pelas religiões, pelas corporações, se o projeto de catástrofe (sinalizado por Darcy Ribeiro) deu certo? Se não basta apenas retomarmos debates a partir da educação popular, mas aprofundarmos construções com ela e nela, quais veredas se apresentam na fronteira entre academia e escola, entre educadores com Lattes e educadores do precário projeto histórico de dominação burguesa?

Não temos respostas prontas, mas podemos ensaiar encaminhamentos em tom de radiografia, sempre aberta a novos exames e diagnósticos. Neste sentido, o dossiê que aqui se inicia busca debater esta temática urgente no Brasil contemporâneo.

O primeiro artigo, A Educação Popular dos Comitês Populares Democráticos nas Favelas do Rio de Janeiro nos anos 1940, de autoria de Reginaldo Scheuermann Costa, apresenta uma análise acerca do projeto de educação popular dos Comitês Populares Democráticos (CPD), nos anos 1940, quando a democracia formal liberal se estabelecia e se instaurava um ideal de identidade e cidadania aos favelados no Rio de Janeiro. A educação popular apresentada pelos CPDs e analisada neste artigo demonstra um meio de disputas acerca da noção de cidadania que se construía naquele momento. As fontes utilizadas para o trabalho são, assim, o relatório da Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS), bem como o jornal A Tribuna Popular, organizado pelo Partido Comunista do Brasil, orientador dos CPDs. Para a empresa, o autor se utilizou do arcabouço teórico proposto por Antonio Gramsci.

O segundo artigo deste dossiê, de autoria de Marcos José Buzon Coli, tem como título A pobreza no Brasil: o Programa Bolsa Família e a Educação Popular. Nesse texto, o autor procura compreender a construção histórico-social da pobreza no Brasil recuando ao processo de colonização. Nesta perspectiva, propõe uma análise do Programa Bolsa Família como uma Política Pública em busca da superação da desigualdade contemporânea analisando, à luz do pensamento freireano, a importância de uma educação de qualidade e libertadora ofertada às classes populares em prol da transformação da sociedade.

Cintia Chung Marques Corrêa nos apresenta o texto intitulado A BNCC: cultura, ideologia e poder, o terceiro trabalho deste dossiê. No escrito em tela, a autora coloca leituras possíveis acerca dos conceitos de cultura, ideologia e poder e suas referências na Base Nacional Comum Curricular. Assim, escrutina quais os conhecimentos privilegiados na BNCC: os da cultura popular ou da cultura dominante?

Encerrando este dossiê, temos o artigo Educação Popular: em defesa do exercício da autonomia no processo de alfabetização, de autoria de Wederson Paulo de Souza e Fabiana Eckhardt. No artigo, que parte da concepção de educação libertadora e dos conceitos de alfabetização e autonomia de Paulo Freire, encontra-se uma investigação, em uma escola da rede pública do município de Juiz de Fora, acerca das práticas pedagógicas que valorizam a autonomia dos estudantes no processo de alfabetização.

Esta edição da Revista Poder & Cultura conta, também com quatro artigos na sessão livre. O primeiro, em pleno diálogo com o dossiê proposto, intitula-se Pensando a educação popular mediada por tecnologias e tem como autores Cristiane Moreira da Silva, Sylvio Pecoraro Júnior, Diogo Fagundes Pereira, Francyne dos Santos Andrade. Neste, os autores colocam uma reflexão acerca dos usos das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) como instrumento de educação na atualidade, problematizando os usos das tecnologias e sua vinculação com o pensamento crítico.

Em seguida, temos o Ensaio sobre a fascistização à brasileira: entre conformismos e experiências. Neste texto, pontual para a compreensão do Estado brasileiro que se apresenta, percorremos a crítica proposta pelo materialismo histórico ao fascismo, notadamente as apostas de Antonio Gramsci e Walter Benjamin. Eduardo Rebuá nos apresenta, assim, a urgência da compreensão do fascismo enquanto cultura.

A superação da ‘morte de Deus’, movimento enfraquecido durante a segunda metade do século XX, é o tema do trabalho de Felipe Soares Forti, O ressurgimento do teísmo. Neste trabalho, partindo das crises do cientificismo e do verificacionismo, o autor apresenta a racionalidade da crença filosófica a favor da existência do divino.

Ainda temos o artigo Maternología: la ciencia de la maternidad. Una mirada de género a los discursos médicos en Montevideo, segunda mitad del siglo XIX, de Aline Lemarquant e María Laura Osta Vázquez. No trabalho, podemos perceber os conceitos desenvolvidos pelas ciências médicas uruguaias para o cuidado da primeira infância a partir de meados do século XIX.

Por último, temos o artigo “Lucky you were born that far away so”: Uma análise da trajetória musical de Shakira em solo norte-americano, através do videoclipe “Whenever, Wherever” e de suas paródias, no qual Danilo de Lima Nunes, após traçar uma breve trajetória musical da cantora Shakira, examina o videoclipe damúsica Whenever, Wherever e de duas paródias feitas ao videoclipe em questão e discute as mudanças pelas quais a artista teve que passar para inserir-se e adequar-se ao mercado fonográfico norte-americano, mobilizando, para isso, o conceito de WASP (White Anglo-Saxon Protestant).


Desejamos aos leitores boa leitura e que as reflexões aqui propostas, especificamente no tangente à Educação Popular, possam oferecer se não respostas, caminhos.



Eduardo Rebuá ¹
Fabiana Eckhardt ²
Leandro Couto Carreira Ricon ³





[1] Professor Adjunto da Universidade Federal da Paraíba, na área de Política Educacional, Departamento de Habilitações Pedagógicas. Professor Adjunto Credenciado do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do Observatório de História, Educação e Cultura [HECO] da UFPB. Contato: rebua7@gmail.com.
[2] Doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do PPGE da Universidade Católica de Petrópolis. E-mail para contato: fabiana.eckhardt@ucp.br..
[3] Professor da Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Líder do grupo de Pesquisa Ensino e Teoria da História, da Universidade Católica de Petrópolis (UCP).